3.10.12

Feliz por Nada

Primeira vez que vi esse livro, confesso, julguei pela capa. De cara imaginei que seria apenas mais um livro de auto ajuda ou algo do tipo! Não sei porque, mas não gosto da cara sorridente e amarela do smile (até onde sei, amarelo não é um bom tipo de sorriso). Lembro da época em que era modinha, e eu com minha apatia ao comum, passei à não gostar. Acabou juntando os broches amarelos com o título em verde sob o fundo preto e branco, e meu inconsciente fez cara de nojo.

Foi só quando um amigo me contou que estava lendo um livro que lembrava eu, que resolvi dar uma segunda chance e olhar com outros olhos. Segundo ele, o livro é composto por diversas crônicas ou contos onde o assunto principal é sobre sentir alegria em nada. Ele me passou um link de um blog com um desses contos/crônicas, e eu fiz um ctrl+c e ctrl+v sem vergonha.

{fonte}

Martha Medeiros - O Isopor e a Neve

"Aconteceu comigo. Eu, que trabalho em casa, senti uma necessidade súbita de sair, atravessar paredes, ganhar as ruas por alguns minutos, a fim de renovar o fôlego para continuar a escrever. Precisava enviar uma correspondência e resolvi: vou a pé até uma agência dos Correios, tem uma a cinco quadras de onde moro. Fui.
Cheguei lá, não sem antes ter sido quase atropelada por um automóvel, foi por um triz. Despachei a carta, saí da agência e foi então que eu vi: um caminhão deixou cair no meio da rua um saco enorme cheio de isopor. O caminhão seguiu seu rumo sem perceber o rastro que ficou para trás. Em segundos, aquele isopor em lâminas foi se transformando em pedaços miúdos. Os carros passavam por cima, e o isopor se desintegrava em partículas que se movimentavam para cima e para os lados em câmera lenta, de tão leves.Parei, porque se eu atravessasse a rua de novo não haveria uma segunda chance: seria atropelada de fato. Eu não estava mais em mim. Via nevar em Porto Alegre no meio de uma tarde de dezembro. Neve de isopor.
Qualquer semelhança com “Beleza americana” é, sim, uma feliz coincidência. Se você viu o filme, não pode ter esquecido aquela cena. Um saco plástico vazio sendo movimentado pelo vento durante alguns minutos.
Apenas a câmera e o saco plástico dançando em slow motion diante dos nossos olhos. Certamente, uma das cenas mais bonitas e poéticas que já vi no cinema.
Foi bem assim. Pedacinhos de isopor que pareciam flocos de neve dançavam sobre o asfalto numa tarde abafada de Porto Alegre. Carros velozes passavam por cima, e os isopores ali, flutuando lentamente, alheios à pressa urbana. O que significava aquilo?
Nada.
Por isso o estranhamento. Por isso a singeleza. As coisas sem significado são tão raras, acontecimentos gratuitos costumam ser tão despercebidos que, se você percebe, ganha o dia. Foi uma cena real, não de cinema, e por isso não teve trilha sonora, os motores dos automóveis violavam o silêncio, mas dentro da minha cabeça ouvi música clássica por alguns segundos, encantada com a neve no asfalto.
Aí o isopor foi se dispersando, se dispersando, e eu comecei a me sentir uma idiota parada no meio da calçada, inerte, como se tivesse testemunhado um atropelamento. Metaforicamente, é o que havia acontecido. Eu havia sido atropelada. Não um atropelamento como quase havia ocorrido minutos antes, quando um carro tirou um fininho de mim em plena faixa de segurança, mas foi outro tipo de atropelo: fiquei paralisada por ter sido plateia de um pouco de poesia no meio de uma tarde de um dia útil, que se mostrou útil justamente quando parei de trabalhar.
Voltei para casa e escrevi este texto sem propósito, em homenagem à neve que também não era neve."
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Achei muito interessante. Gosto desse negócio de sentir-se inspirado por pequenas coisas que acontecem no dia a dia. É como olhar para as árvores enquanto vou ao trabalho de bicicleta, e respirar sentindo o ar que foi purificado por elas, ou sentir vontade de cantar quando veja algumas nuvens carregadas no céu, ou vontade de cantar e dançar loucamente quando começa a chover.

Acho muito profundo e delicado falar sobre isso, mas sinto que um dos segredos de ser feliz é exatamente esse, saber enxergar o valor das pequenas coisas e ser grato à Deus por tudo. Claro... tem dia que estamos carregados de preocupações e problemas que nos cega para essas coisas. Nem sempre é fácil dominar essa tão nobre arte de ser Feliz por Nada.

Editando. Eu não comprei o livro e provavelmente não comprarei. Achei o texto interessante porque diz respeito a um assunto que me interessa. A foto não é minha, vide créditos.

10 Comentários:

del disse...

Eu li um livro da Martha (Trem-bala, se não me engano) e olha, não gostei. Achei bem... como posso dizer? .... imaturo. Mas como eu sou bem blasé, não posso servir de referência.

Enfim.

Por incrível que pareça, mesmo assim continuo curiosa pra ler o Feliz por Nada. Todo mundo fala bem dele. Quem sabe, se eu perder a preguiça e diminuir um pouco a minha fila de leitura... :)

Bianca Moraes disse...

Haaa... eu naõ gostei TANTO desse livro dela. Achei os contos mais fraquinhos do que outros que já li!
E ganhei de presente! Também não gostei da capa.. achei meio brega. Mas, como já gostava da autora, não hesitei antes de começar a ler! ^^
Um que gostei foi o "Non-Stop". :)

;*

Sarah P. disse...

legal pablinho!
o texto me fez lembrar da minha capacidade extra de observar os detalhes das coisas quando estou entre atividades. como as folhas de uma arvore, ou passaros no caminho. =]

Raone Araujo disse...

Lembro que a primeira vez que coloquei os olhos em Feliz por Nada, foi em meu horário de almoço no ano passado, estava passando pela livraria do centro da minha cidade e quando avistei a capa do livro, me senti fisgado, como se eu fosse um grande e enferrujado imã e o livro um pedacinho de metal. Achei a capa tão convidativa que se não fosse pela falta de grana no dia, provavelmente teria levado para casa.
Depois desse dia, reencontrei com o livro na livraria da minha cidade natal, estava com a minha mãe naquela tarde, e, se não fosse pelo grande e terrível defeito dela de achar que livros são imprestáveis, eu certamente a teria convencido de comprá-lo. Mas enfim...

Essa foi a primeira vez que li alguma "coisa" de fato sobre o livro, e olha, fiquei tão empolgado com a ideia que até cheguei a pesquisar o preço na Livraria Cultura. Sei lá, algo sobre ele me lembrou a mensagem do filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" que eu assisti pela primeira vez na semana passada. Sim. Eu sou um extraterrestre. Esse lance de olhar a vida com outros olhos e apreciar as pequenas coisas, me encanta! (:

Bianca Moraes disse...

Coleciona miniaturas de cadeiras! Você tem duas ou três, né? o.O
Mas, são tão caras! :(

Então Pablooooo... eu já fui a Londres sim. Umas quatro vezes. Morei em Cambridge, na Inglaterra por 3 meses e fui a Londres de trem. Mas, apenas para passeios turísticos, visitar museus e tudo mais.. ^^
Tô pensando em fazer intercâmbio ano que vem e parece que a melhor opção vai ser Inglaterra, pra curso de inglês e culinária! Legal, né? Mas ainda não é nada certo... :)

;*

Aline disse...

Eu também achei a capa nada atraente, não compraria por isso e pela categoria de auto-ajuda do livro. Mas você postando esse trecho realmente alegrou um tantinho meu dia ^^. Será que tem mais contos legais no livro?
Beijo!

Aline disse...

Ah, a foto do livro que você escolheu favoreceu a capinha nem tanto atraente. Ficou muito bom o foco da fotografia :)).
Beijo, Pablo.

Natalia disse...

O que eu mais gosto da Martha são as crônicas, então amei o livro. Li no ano passado e se tornou um dos meus preferidos, excelente é pouco. Também julguei pela capa! rs mas como já conhecia a autora, sabia que não ia me decepcionar.

Lolla disse...

ver beleza e mágica em coisas pequenas é um tipo de talento, sem dúvida. as únicas coisas que eu li da martha até hoje foram crônicas de jornal, de qualidade variável na minha opinião. mas sim, eu consigo entender o sentimentos por trás da palavras desse texto, até porque isso me acontece com frequência. :)

Angélica Cirne disse...

Olhava esse livro com maus olhos porque julgava ele auto-ajuda, que detesto, depois que li seu post fiquei interessada nele, eu adoro ler, mas tenho tido tão pouco tempo que gostei da forma dele de ter crônicas pequenas, que posso ler à noite, no ônibus. Ele chegou hoje, já li algumas e estou gostando muito.

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